Pernambuco brilhou
Os resultados do Enem 2006 saíram às vésperas do Carnaval: ao serem divulgados, a festa máxima ofuscou a informação

Por Nelly Carvalho

O ensino médio no Brasil, antigo segundo grau, apresenta uma grave inadequação à realidade por não possuir uma feição de terminalidade, prejudicando os que não têm interesse, aptidão ou competência para ingressar no ensino superior. Mesmo com outras denominações, no passado, sempre teve as características de um preparatório para o vestibular e os profissionalizantes criados não deram conta do recado.

Sendo uma etapa que corresponde, no seu término, grosso modo, ao fim da adolescência, constitui-se como conclusão da formação básica para o exercício da cidadania, servindo tanto para aqueles que se destinam a continuar os estudos como aos que resolvem ali parar. Por isso, deve ser constantemente avaliado , servindo as avaliações de indicativo para decisões a serem tomadas.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enen), criado em 1998 pelo Inep, afere anualmente a qualidade do ensino, além de servir como modalidade alternativa ou complementar aos vestibulares e ao mercado de trabalho. Foi bem planejado e vem sendo bem executado, oferecendo uma imagem realista da educação na atualidade, mesmo sendo a participação individual e voluntária.

O modelo de avaliação foi desenvolvido com ênfase na construção do conhecimento e não apenas na memória, centrado em competências e habilidades.

Os resultados do Enem 2006 saíram às vésperas do Carnaval: ao serem divulgados, a festa máxima ofuscou a informação.

Alguns aspectos dos resultados foram surpreendentes, outros nem tanto. Entre as 20 escolas mais bem colocadas, apenas três são públicas e federais, ligadas a universidades, em Pernambuco, Minas e Paraná, o que indica deficiência no ensino público estadual em todas as unidades da federação.

As 20 são escolas da área urbana. Minas (cinco) e Rio de Janeiro (seis) foram os campeões e junto com São Paulo (três), Paraná (uma) lideram a qualidade do ensino no Sul-Maravilha, onde surpreende a ausência do Rio Grande do Sul.

Mas a surpresa boa ficou para o Nordeste. A Bahia teve uma escola classificada, localizada em Feira de Santana e o primeiro lugar geral coube ao Piauí, um dos nossos Estados mais pobres.

Pernambuco brilhou. Duas escolas foram colocadas na lista das 20 melhores, num universo de 21.257 unidades de ensino. Uma, pública e federal, o Colégio de Aplicação da UFPE, cuja competência dos professores é reconhecida e louvada. A outra, particular e leiga, o Colégio Equipe , instituição cujo diretor, professor Armando Vasconcelos, conseguiu tornar, em poucos anos, uma referência no Estado.

Para isso, centrou-se na educação básica, sem veleidades de criar centros universitários e dispersar o esforço de formar crianças e adolescentes. Como professor do Centro de Educação da UFPE e diretor do Colégio São Luís, ganhou experiência e formou uma equipe de profissionais que dá sustentação ao trabalho.

É interessante observar que ambos os colégios têm preocupação não apenas com a formação intelectual, mas desenvolvem atividades extra-curriculares nas áreas de artes, ciências e educação política, levando os alunos a refletir sobre a realidade a sua volta em termos de valores, conhecimentos e atitudes, para que aprendam a se posicionar numa sociedade em mutação.

Além disso, ressalta, em ambos, a qualidade do corpo docente , no Colégio de Aplicação, admitido por concurso, no Equipe, pela seleção com critérios rigorosamente profissionais.

Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, não perdem de vista o aprendizado em si, o desenvolvimento das competências e habilidades, próprias do ensino médio. E sabem cobrar resultados e responsabilidade dos alunos.

Dominar a norma culta da língua portuguesa é uma dessas competências a que os professores de ambos os colégios dão ênfase, pois, além de ser exigida no Enem, é necessária para interpretar dados de todas as demais disciplinas, seja matemática, ciências ou história.

Mas não se pode dormir sobre os louros conquistados. O esforço pela melhoria da educação tem que ser constante e a busca do crescimento, uma meta permanente.

Nelly Carvalho é professora da UFPE e da Fafire.